Por Sabrina Machry
No dia 8 de agosto de 1969 os Beatles eternizaram a faixa de pedestre da Abbey Road, fotografados enquanto faziam a travessia para a capa do disco que leva o nome da rua. Por conta disso, o dia de hoje foi escolhido para lembrar o pedestre. E como anda a situação do pedestre na cidade do Recife?
O pedestre, que ocupa o lugar de maior importância na hierarquia de modos de transporte, está em alta nos discursos de Cidade para Pessoas e, no entanto, ainda não ganha a devida atenção nas políticas públicas e no dia a dia das cidades. E no Recife não é diferente.
Com 1,53 milhão de habitantes e dimensão territorial de 218,43km2, o Recife é a quarta capital em densidade populacional do Brasil (7.039,64 hab./km2)2. Por ser uma cidade compacta e predominantemente plana, reforça a viabilidade dos deslocamentos por transporte não motorizado. Ainda que não ocupe as primeiras posições nos rankings de população e tamanho do perímetro urbano, sofre com os problemas das metrópoles: é a pior cidade brasileira e sexta pior do mundo no ranking de congestão no horário de pico da volta do trabalho (Tomtom, 2015). Entre as dez cidades mais populosas do país, Recife é a que possui a maior taxa de mortes no trânsito com 34,7 mortes por 100 mil habitantes (ONSV, 2014), quadro que apenas demonstra as consequências de anos de priorização do transporte individual motorizado e falta de incentivo aos modais sustentáveis. Além destes deméritos, a Região Metropolitana do Recife ocupa o 13º lugar das 15 metrópoles brasileiras analisadas na qualificação do Índice de Bem-Estar Urbano (IBEU, 2013).
Os incentivos a modos ativos de transporte, e especialmente a atividade pedestre, trazem benefícios econômicos, ambientais e sociais para as cidades. Andar a pé, além de ser uma opção saudável, eficiente e agradável ao pedestre, também promove a microeconomia, o comércio local, vitalidade e oportunidades nas ruas. A experiência do caminhar pela cidade amplia relações de sociabilidade, pertencimento e identidade, ou seja, fortalece laços entre pessoas que se encontram ou se cruzam, e também entre pessoas e lugares. Além disso, quanto mais pessoas andando nas ruas, maior a vigilância social e o controle do cidadão sobre as condições do espaço público.
Visando melhorar a qualidade de vida da população e o espaço urbano do Recife, o INCITI / UFPE estuda e promove o uso do espaço público e a atividade pedestre. O projeto Parque Capibaribe, desenvolvido pelo INCITI /UFPE em convênio com a Prefeitura do Recife/ Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade, prevê a implementação de 51 quilômetros de ruas parque e 12 passarelas cruzando o rio, encurtando caminhos e melhorando as condições ambientais para o pedestre. A ideia é ter uma rede de caminhos a pé e de bicicleta que cada vez mais conecte as pessoas e o espaço público da cidade, incentivando modos ativos de transporte e promovendo a redução de emissões e impactos ambientais.
São também realizadas pesquisas nas áreas de gestão de espaços públicos, segurança e espaço urbano, mapeamentos mentais de rotas nas cidades e caminhabilidade. A pesquisa em qual rua você prefere andar? (acesse bit.do/andabilidade) é um breve experimento para entender as preferências espaciais do pedestre, isto é, quais as características ambientais importante para andar a pé. Com base nos resultados desta pesquisa está sendo analisada a condição da Caminhabilidade do Bairro das Graças, por meio da avaliação da qualidade das ruas ao pedestre.
Para resgatar e fortalecer esta relação o INCITI / UFPE promove ocupações de espaços ao longo do rio e também nas ruas do Bairro do Recife, onde fica a sua sede. Também são realizados laboratórios e workshops de prototipagem e urbanismo tático, na emergência de soluções e experimentações do cotidiano urbano.
Lembrando que ninguém esta condicionado a um ou outro modo de transporte, portanto somos todos pedestres! Já andou pelas ruas do seu bairro hoje?


